Esta noite estive em uma palestra com o mestre Joaquim Redig, que ocorreu no centro de design da UFRGS. O tema era o processo projetual de Aloísio Magalhães, com quem Redig trabalhou ao lado por 15 anos. Também com a presença de ex-professores marcantes como Júlio van der Linden e Mário Fontanive.
Joaquim Redig é autor de “Sobre Desenho Industrial”, que assim como o “Designer Humilde” de Charles Bezerra, comentado no post anterior, é indispensável, bibliografia básica para qualquer estudante e profissional do Design. Ou melhor, do Bom Design.
Após mostrar um pouco do processo e trajetória do saudoso Aloísio, abriu-se para perguntas da platéia. Neste momento colegas levantaram questões relacionadas à contemporaneidade em comparação aos trabalhos realizados por Aloísio. Falou-se de método, conhecimento, linguagem, conceito.
Redig comentou do “vazio de sentido” das coisas, do design de hoje. Do excesso de técnica sem teoria.
Em suma, me parece que, conforme comentei no post anterior, falta, realmente, paixão pelo que se faz.
Foi então que dei-me conta: Não basta paixão.
É preciso saber como fazer, qual a maneira mais correta, hábil. É preciso dominar as técnicas e teorias. É preciso estudar tudo de tudo, ter referências. É preciso saber mergulhar profundamente no contexto de cada projeto. Somente assim e, somente assim, teremos resultados novos, inovadores, idéias criativas, através de uma “racionalização da intuição”, em palavras do Redig.
Somente aquele que tem segurança do que, como e porquê se faz, tem segurança para arriscar, para inovar.
É o nadar contra a corrente do mundo caótico, onde a demanda de mercado exige rapidez. Onde o que é produzido também é consumido rapidamente. Do mundo nunca antes tão efêmero e vazio de sentido das coisas.
O Design, o Bom Design, tem a obrigação de ter sentido, responsabilidades social para com aquele público que consome. Fazer design não é trabalhar para o cliente, mas sim suprir as demandas, da melhor maneira possível, dos clientes do cliente. O Design é para as PESSOAS. É por uma experiência, produtos e serviços melhores, eficazes, hábeis.
Uma pequena parábola:
Na China existe o rio Huang Ho, o Rio Amarelo, que atravessa todo o país. Para reproduzirem-se, as carpas devem nadar contra a correnteza, cruzando caminhos sinuosos, por fim, atravessar uma cachoeira, a Longmen Falls, o Portal do Dragão. Reza a lenda, que tamanho é o esforço da carpa para cruzar a cachoeira, que ao regressar, em sua descida pelo rio, a carpa já não é mais carpa, é Dragão.
Ainda no oriente, Gautama Buda, o Iluminado, disse que o seu dharma, seus ensinamentos, são “nadar contra a correnteza do mundo”, pois vão de encontro à tendência ao materialismo que, já naquela época, era um forte obstáculo à busca espiritual da felicidade última.
Assim, pergunto, queres ser a carpa que não sobe o rio, o homem que não transcende ou o dragão que desse o rio, o homem bem-aventurado?
Se optares pela segunda, saibas que deverás enfrentar a correnteza do mundo, mas terás a consciência limpa e o sentimento pleno de dever cumprido.
Acabo de chegar de uma palestra na Unissinos, em Porto Alegre, com Charles Bezerra, um cientista da inovação, um gênio! Ele é autor de “O Designer Humilde – Lógica e ética para a inovação”, livro que considero LEITURA BÁSICA para qualquer estudante e profissional do design, e seu mais atual lançamento: “A Máquina de Inovação – Mentes e Organizações na Luta por Diferenciação”, que acabei de comprar!
Na palestra, Charles falou de muitas coisas importantes e interessantes. Contudo, antes de entrar no mérito das questões abordadas, preciso comentar a forma como ele expõe suas idéias. Ele motiva o ouvinte. E não precisa gritar, não precisa gesticular, não precisa ser arrogante para isso. Ele simplesmente fala o que pensa, guia o pensamento do ouvinte através de lógica simples e clara, conforme colocou a @sahrosa, amiga que juntamente com a @ivnita , acompanharam comigo e demais colegas a palestra. O que ele diz, faz sentido. E mais do que isso, ele acredita no que fala e faz.
Aproveitando o gancho sobre acreditar no que se faz, voltei conversando com as duas colegas que citei, sobre essa questão.
Recordei de uma frase do Enzo Mari, designer italiano, que vi em aula , que, em suma, colocava que o design tinha uma natureza utópica, pois ele é voltado à sociedade, com um espírito socialista que visa o bem comum, mas está à mercê da indústria e do mercado que visam o lucro. Em comentários na aula, ainda foi colocado que o design de hoje tinha por utopia a “sustentabilidade”, que essa é o novo “socialismo”.
Me questiono: será mesmo?
Se continuarmos pensando, dizendo e acreditando que o bem comum, a visão social, a visão sustentável no design são utopias, um dia elas deixarão de o ser?
Dizer que algo é utópico, logo, que não vai se concretizar, à alunos que já sofrem uma série crise de motivação e falta de paixão pelo que fazem, herdadas de um sistema de ensino limitador e assassino da criatividade, não mata a motivação e paixão que lhes resta?
Ter motivação, ser apaixonado pelo que se faz, é imprescindível se quisermos melhorar alguma coisa, seja ela qual for. Ser apaixonado pelo que se faz é assumir risco, é estar disposto a se arriscar pelas idéias e ideais em que se acredita, e que se tem esperança que venham a se concretizar.
Se hoje formam-se profissionais inseguros, micreiros com diploma, que apenas aceitam ordens, sem questionar ou tentar fazer cada vez melhor, é porque lhes foi tirada a motivação que um dia tiveram. E tiveram. Todos, alguma vez, já fomos apaixonados, já tivemos esperança, já pensamos que podíamos mudar o mundo. E o que aconteceu? Desistimos? Nos conformamos? Por que?
Foi essa visão segmentada, cartesiana, que visa a especialização cada vez mais profunda sem ver o todo, sem ver como as partes interagem, sem criatividade, que nos matou, que matou os nossos sonhos?
Charles comentou que para termos empresas inovadoras, produtos inovadores, idéias inovadoras, precisamos, primeiro, ter profissionais com uma mentalidade voltada para a inovação. São poucos os que ainda ousam se questionar sobre as coisas. E esses ainda são taxados de rebeldes, birrentos, cismados. Como reverter a atrofia causada pelo sistema educacional vigente? Como articular ou introduzir o conceito de inovação no nosso local de trabalho e estudo?
Vale a pena esclarecer que “inovação”, aqui, não é o mero e superficial novo, novidade, modismo. Inovação é se repensar o que se faz ou se tem, de maneira a melhorá-lo cada vez mais. Aumentar sua eficiência, descobrir novas possibilidades, integrações, conexões. Ver o todo. E para isso é preciso, também, saber Muito de Tudo. Ter curiosidade, questionar, buscar entender o porquê das coisas.
Me despeço por aqui, deixando muitas perguntas sem resposta, de presente para você! E claro, a recomendação de leitura do “O Designer Humilde”.
E como lembrou Bezerra na palestra: ”É um milagre que a curiosidade sobreviva ao ensino formal” já dizia Albert Einstein.
Abraço e obrigado pela atenção!
Felipe Barcellos.
Alguns posts do Charles Bezerra no Webinsider, antigos mas atuais, como tudo o que é realmente bom: http://webinsider.uol.com.br/index.php/author/charles_bezerra/
Falarei daquilo que muitos já devem estar sabendo, a esta altura do campeonato… Ou não, já que é de interesse de uns que quase ninguém saiba…
Conforme já comentei aqui, e quem esteve no NDesign 2010, na plenária final, ficou sabendo pessoalmente, o MEC pretende estabelecer novas regras para o curso de design, onde teremos um bacharelado em Design (4 anos ou mais), genérico, e cursos tecnólogos (máximo de 2 anos) dentro da especificação de cada área do design, como desenho de produto, gráfico, moda, digital, jogos, etc.
Ainda estou pensando sobre o assunto e confesso que não sei opinar o quão bom ou ruim isso pode ser, por ser uma questão bastante complexa.
Contudo, um questionamento me veio: não seria uma oportunidade para que, finalmente, o design seja levado a sério pelas empresas e pelo “mercado de trabalho” em geral?
Hoje, o bacharelado de design apenas diz que você não é um micreiro, mas continua sendo e servindo como peão de computador. Essa é a triste realidade. Você é o cara que faz as coisas no “PC”, que deixa tudo “bonitinho”. Parábens, formando, agora você é um micreiro oficial e honorário!
É obvio que um bacharelado deveria ser muito mais valorizado. Mas de nada adianta quando os próprios formandos seguem por este caminho por vontade própria, muitas vezes.
Essa nova situação que o MEC está propondo, é, para mim, a oportunidade que faltava para que os cursos de bacharelado em design possam, finalmente, servir ao seu propósito maior: formar DESIGNERS. Mas não micreiros oficiais… Eu digo “designers” mesmo!
Tomando-se que uma das traduções para “designer” pode ser “projetista”, podemos falar em algo até maior do que isso, algo que sempre considerei ser o real objetivo de uma formação em design: o Gerente de Projeto.
Claro que não é desmerecer os que buscam um conhecimento mais prático, técnico, dentro do design, mais voltado para a execução do projeto em si, pois as pessoas gostam de coisas diferentes! Eu, particularmente, sinto mais interesse em gestão de projeto do que em direção de arte, é um gosto pessoal. Contudo, abre-se o espaço para aqueles que desejam obter conhecimento dentro da área de gestão de projetos, que, até então, ficava bastante preterida na maioria dos cursos pelo Brasil, possam estudar o assunto com a ênfase merecida!
Venho de uma instituição de ensino em que a parte da formulação do projeto, metodologias, enfim, a forma como se resolvia o problema ou se chegava ao resultado, importa muito. Graças a essa oportunidade pude ver que o “processo do design” possui uma complexidade apaixonante, ao menos para mim.
E mais ainda, tive a grande oportunidade de ser monitor em uma disciplina de projeto, onde o foco é o projeto em sí, apesar do resultado ser também bastante considerado, o processo, o método, é o foco. E de quaquer forma, como pude concluir pessoalmente, quando se executa o processo do design de maneira coerente, pensada, estruturada, com fundamentação e estudo, o resultado é, na maioria das vezes, excepcional.
Trabalhos com resultados ruins, geralmente, estão relacionados a falta de estudo, embasamento, conhecimento sobre o tema, falta de desenvolvimento de idéias. E isso tudo é resultado, ou de falta de comprometimento, ou de falta de organização. Não obstante, das duas.
Pelas experiência profissionais que tive e estou tendo, não existe um profissional de design encarregado por tudo. O que já é um sinal das mudanças. Em muitos locais o mercado de trabalho já está avançado em relação à formação acadêmica, pois já divide, em um sentido positivo, a organização, projetação e execução dos projetos de design, assim cada sub-área do design tem um responsável, tornando o resultado mais rico, através de um processo colaborativo.
Tendo dois tipos de formação, uma mais prático, técnico, mais voltado à execução e outro mais teórico, mais voltado ao embasamento e ao processo do design em sí, cria-se uma nova realidade para o design. Mais reconhecida, mais valorizada, em suas duas formações.
Saliento que não existe uma “importância” maior em qualquer um desses dois tipos de formação. Elas são perfeitamente complementares. E as duas, juntas, convergem para a realização de projetos cada vez mais audaciosos, com qualidade cada vez maior. Da mesma forma, que elas, separadas, culminam em fracasso.
Não existe exercito sem general, não existe representante sem povo, não existe capitão sem tripulação. Cada um tem seu papel, que em um todo faz as coisas funcionarem, em harmonia, visando um objetivo em comum que é desempenhar suas funções da melhor maneira possível.
Espero, realmente, que dentro de alguns anos veremos listas de vagas para gerentes de projeto júnior, estagiários de direção de arte, prototipia, auxiliares e aprendizes em gestão e execução de projetos. E, certamente, pessoas mais felizes, trabalhando com aquilo que realmente gostam e, por tabela, mais produtivas.
Assim espero…
E você, espera que…?
